#001 – Coragem para blogar.

Mas precisa de coragem para Blogar? Não basta ter tempo, ser disciplinado e encontrar vários temas sobre os quais opinar? Isto até pode ser verdade, mas mesmo assim precisa ter coragem. Principalmente coragem para se expor. Dizem por aí que o papel aceita tudo ou, como na versão em Inglês, o papel não fica envergonhado (paper doesn’t blush). Particularmente, eu discordo um pouco das duas versões deste ditado. O papel pode aceitar tudo. Da mesma forma, as inúmeras plataformas digitais são consideradas as mais importantes ferramentas no processo de democratização da informação neste início de século XXI. Está cada vez mais fácil de expressarmos as nossas ideias e compartilhá-las com o mundo.

Em junho do ano passado (2015), o intelectual Italiano Umberto Eco afirmou que as “redes sociais deram voz para uma legião de imbecis” e “promoveram o idiota da aldeia a portador da verdade”. Na minha experiência pessoal e profissional, já senti muito medo de ser o ‘idiota da aldeia’, já procrastinei a redação da tese (e ví vári@s colegas fazendo o mesmo) por receio do que a banca ou os nossos pares iriam pensar da nossa capacidade técnica e retórica. Convenhamos, no ambiente da academia, onde você precisa defender seu argumento perante uma banca de professores doutores ‘picas das galáxias’, onde os seus colegas irão presenciar uma performance que no máximo será mediana, este medo é muito bem justificado. Seja na Universidade ou fora dela, este medo existe e ele existe porque somos constantemente cobrados para sermos perfeitos, excelentes, capazes de superar todas as expectativas colocadas sobre nós. Por isso, acho difícil que alguém aí queira ser reconhecido na rua como sendo o ‘idiota da aldeia’. Mesmo que o papel, ou as plataformas digitais, aceitem as mais diversas opiniões, algumas pessoas podem se sentir intimidadas pela simples ideia de exposição pública. Escrever e permitir que outras pessoas leiam o que nós escrevemos é um ato político, que pode alterar a maneira como você se relaciona com seus familiares, amigos e colegas de trabalho e até mesmo com a organização para a qual você vende o seu tempo de vida (força de trabalho).

Provavelmente, o medo da exposição e da reprovação pública sejam  dois dos motivos porque existam tantas pessoas que parecem apáticas e não se posicionam publicamente sobre temas controversos como casamento entre pessoas do mesmo sexo, liberalização das drogas, eutanásia, política, religião, etc. Isto se torna preocupante para um professor de sociologia quando encontra tantos estudantes desmotivados para expressarem suas opiniões em sala de aula, e principalmente com tantas dificuldades para escrever artigos e ensaios onde são convidados a sistematizarem seus pontos de vista. Aparentemente, é mais fácil escrever uma linha de comando em computação, ou decorar o nome de todos os órgãos e ossos que compõem o corpo humano do que apresentar ‘a sua solução para os problemas da cidade’. Eu particularmente ainda sofro um pouco deste medo de exposição e eventual reprovação, mas depois de escrever uma tese de doutorado e encarar salas de aula com cinquenta estudantes armados com seus celulares, prontos para rebater minhas afirmações em sala com uma busca no google, um post de blog não parece mais tão assustador assim.

O lado bom dessa exposição de ideias e opiniões é que ela te permite romper relações improdutivas e construir novas redes de colaboração, apoio e diálogo, em outras palavras, ter permite novos ‘intercursos’ intelectuais. Isto é verdade para quem publica artigos científicos, para quem expressa sua opinião em colunas de jornais, para quem escreve em um blog, mas também para quem ‘twita’ ou manda indiretas pelo facebook. Se a redação de artigos científicos tem uma estrutura muito hermética, um linguajar muito formal, demoram para ser publicados e geralmente não são lidos por quem não está na pós-graduação, as plataformas digitais são muito mais dinâmicas, heterodoxas, podem alcançar um publico bem mais amplo e permitem práticas muito mais dialógicas.

Isto, no entanto, não significa que escrever num blog seja uma tarefa mais simples. Pelo contrário, representa um desafio enorme. É preciso, em primeiro lugar, ter o mínimo de predisposição para aprender a ‘fuçar’ nestas mídias. É preciso reconhecer que não se nasce sabendo escrever, se aprende na prática. É preciso aprender a escrever de forma clara, direta e ‘resumida’, sem no entanto perder o rigor para o encadeamento lógico e para a sustentação empírica (com dados) dos argumentos. É preciso ter coragem para se expor para o mundo e esperar por (e não evitar) as opiniões divergentes, pois construímos o mundo e novas formas de sociabilidade de forma coletiva. Por fim, para manter um blog é preciso ter disciplina para escrever, e essa dica é válida para toda forma de escrita. Mas assim, né!? A regra é clara, “se você não quer tomar notas e escrever, bem, não tente entrar para a sociologia: é a única maneira de se tornar um pouco mais objetivo” (Latour, 2015. p.135). Como eu já entrei para a sociologia e como é a minha atuação como sociólogo e professor que colocam o pão na minha mesa, vou ser resiliente (à minha maneira) na identificação de temas sobre os quais eu acho que merecem a minha reflexão e na superação da procrastinação nossa de cada dia.

À principio, aqui vou tratar de assuntos que tenho interesse pessoal, curiosidade e sobre os quais eu acredito poder opinar. Eventualmente, as reflexões daqui irão sustentar alguns dos debates que proponho em sala de aula, mas para as discussões específicas dos temas e trabalhos de pesquisa sendo realizados nas aulas, eu sugiro que você visite os blogs que estou mantendo em conjunto com @s estudantes (veja a seção ‘Quem sou eu e porque estou aqui’).

Referência citada no texto.

LATOUR, Bruno. Reassembling the social: an introduction to Actor-Network-Theory. Oxford: Oxford University Press, 2005. 301p. (Claredon Lectures in Management Studies).

Se quiser um resumo, clique aqui e leia a resenha que eu fiz do livro (nb. Eu não uso mais o e-mail mencionado neste trabalho).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: