#002 – A obsolescência da Universidade

Para me despir do receio de reprovação e provocar novas encontros, vou dedicar este post inaugural à reflexão sobre um dos maiores desafios que tenho encontrado na minha atuação como professor universitário, a obsolescência da universidade, mais precisamente a baixa relevância social da Furb e como isto afeta a maneira como os estudantes se comportam dentro das salas de aula no ensino superior. Eu sei que este é um tema complexo e que não vou conseguir refletir sobre a sua totalidade, nem almejo fazer isto aqui, mesmo assim ouso fazer alguns apontamentos sobre como podemos pensar alternativas, visando posicioná-la como ‘ponto de passagem obrigatório’ na construção de uma sociedade socialmente justa e ambientalmente sustentável, sem necessariamente recorrer a discursos populistas.

Após os meus primeiros três semestres atuando como professor universitário (2014/2, 2015/1 e 2015/2) fiquei com a impressão de que a universidade, em especial no contexto periférico em que se posiciona a FURB, está passando por sérios dilemas pedagógicos, financeiros e organizacionais. Uma avaliação sobre o porque de a FURB estar nesta situação aponta para o fato de que ela está tendo dificuldades em tornar o conhecimento que ela produz relevante para a sociedade, apesar de ter qualificado sua produção técnica durante os últimos 10 anos. Por um lado, ela não consegue fazer os estudantes se interessarem e se motivarem para estudar nada que não tenha uma aplicação prática quase que imediata na sua área de atuação direta. Por outro lado, temos a síndrome de que ‘na prática a teoria é outra’ ou a máxima que diz ‘não me venha com estas modas que você aprendeu lá na universidade, porque aqui quem manda sou eu e vamos fazer as coisas do meu jeito’. Parece que não existe uma preocupação sistemática (e coordenada) por parte da instituição sobre como o conhecimento produzido por aqui pode modificar significativamente a estrutura social, econômica e política da região. Se existente, esta preocupação tem surtido pouco efeito.

Desde o início do século XX, mais precisamente com o ‘Manifesto de Cordoba‘ publicado pela Juventude Argentina de Cordoba aos homens livres da América, tem se fortalecido uma perspectiva de que além de produzir e transmitir conhecimentos cientificamente sólidos a universidade deveria socializar este conhecimento para fora da sua torre de marfim. É esta perspectiva que dá sustentação a estruturação das atividades universitárias em Ensino, Pesquisa e Extensão. O problema está no fato de que estas três atividades tem sido realizadas de forma separada. Mesmo correndo o risco de realizar generalizações muito superficiais, podemos dizer que na universidade brasileira quem faz pesquisa é o professor pesquisador, quem ‘dá aula’ é o substituto/temporário/PSPS e quem faz extensão é o pessoal que quer conseguir uma grana junto às empresas, a turma dos serviço social (ou apoio jurídico e/ou psicológico), ou então a divisão de cultura, que busca fazer marketing institucional e legitimar a Universidade junto a sociedade. Em outras palavras, pouco do que é pesquisado aparece na sala de aula e a universidade ainda se vê como única detentora do saber, portanto responsável por colonizar a sociedade. Não estamos sabendo agir estrategicamente contra o fato de neste amplo sistema sociotécnico (cf. Hughes, 1987), no qual as informações estão na tela de smartphones, a universidade apenas financia a aquisição do diploma de ensino superior. Ninguém precisa ser gênio para perceber que a a manutenção da dissociação entre ensino, pesquisa e extensão vai continuar deteriorando a relevância societal da universidade e vai reduzir a sua capacidade de produção de conhecimento cientificamente sólidos. É preciso, portanto, trazer a pesquisa e a extensão para dentro da sala de aula.

Em outro momento eu vou me aprofundar mais na reflexão sobre os dilemas com os quais a universidade tem se deparado. Agora quero refletir um pouco sobre como este blog pode ajudar os/as estudantes das diversas áreas do saber a se interessarem mais pelas chances que tem de efetivamente contribuírem para a produção e socialização de conhecimentos capazes de promoverem mudanças significativas para a sociedade no Vale do Itajaí.

A maior parte d@s estudantes de graduação se deparam com três obstáculos para um maior aproveitamento do seu período na Universidade. Primeiro, influenciad@s por práticas comunicacionais típicas da sociedade da informação, ondem abundam textos extremamente curtos e simplistas, @s alun@s tem grande dificuldade para ler e interpretar textos acadêmicos. Segundo, a fuga da chatice das salas de aulas (a tortura nossa de cada dia) é muito mais fácil e quase imperceptível. O bilhetinho que, em um tempo não muito distante, passava de mão em mão foi substituído pelo smartphone, pelo tablet ou pelo notebook. Como consequência @s alun@s prestam pouca atenção nas aulas. Terceiro, por estarem inseridos numa cultura em que a comunicação é realizada preferencialmente em plataformas multimídia, a expressão pessoal deixou de ser escrita e se tornou audiovisual. Infelizmente, não há nada de novo em afirmar que a maior parte d@s estudantes tem dificuldades enormes para escrever qualquer tipo de texto que tenha mais do que 140 caracteres. O problema se torna ainda mais perceptível quando @s alun@s são solicitados a produzirem textos acadêmicos, com um argumento a ser sustentado através do emprego de uma estratégia retórica clara, seguindo as regras básicas para o uso de citações e referências. Ler, manter a atenção e escrever são atividades que estão intimamente relacionadas e são essenciais não apenas para a sobrevivência na academia, mas também para o desenvolvimento pessoal e profissional de qualquer pessoa. No entanto, a situação é bem mais complexa e culpar @s alun@s pela sua falta de interesse e comprometimento é identificar apenas uma pequena parte do problema. Ainda mais, culpabilizar exclusivamente @s estudantes é reconhecer a dupla falha da Universidade. Por um lado, ela não consegue compreender e agir dentro da sociedade na qual está inserida e sobre a qual precisa atuar de maneira reflexiva. Por outro, apesar de se colocar como um ponto de passagem obrigatória para o acesso ao mercado de trabalho e para a ascensão social, ela não tem conseguido interessar a comunidade discente nem a sociedade para a discussão, reflexão e construção conjunta do conhecimento (alguém aí acha que é possível produzir conhecimento sem apoio de empresas, orgãos públicos, sociedade civil, seja na concessão de recursos financeiros ou na colaboração em responder intermináveis questionários?).

A Furb tem perdido o seu lugar de hegemonia na produção e articulação de conhecimentos, em especial não tem conseguido estabelecer vínculos significativos e duradouros com os seus egressos (alumni), a sociedade civil (Movimentos Sociais e ONGs) e com o setor produtivo (as empresas da região). Isto pode estar sendo causado pela maneira através da qual os cursos de graduação e pós-graduação tem sido avaliados pelo MEC e CNPq, que reforça uma lógica quantitativista do “publique ou pereça”.  Além do problema de legitimidade e manutenção da universidade enquanto produtora de saber socialmente relevante, esta situação implica numa redução das capacidades de geração de soluções (inovações) técnológicas e sociais para a sustentabilidade social e ambiental da região, pois para a sobrevivência financeira da universidade é mais importante que ela incentive a publicação de artigos científicos em revistas acadêmicas (journals).

Este blog está surgindo (rafabennertz.wordpress.com) como articulador das práticas educacionais que venho utilizando nas minhas aulas de Desafios Sociais Contemporâneos. Uma proposta semelhante eu estou buscando implmentar nas aulas de ‘Dilemas Éticos e Cidadania’ e ‘Sociologia II’. A maneira como eu compreendo e trabalho a disciplina de Desafios Sociais Contemporâneos busca integrar as atividades de ensino, pesquisa e extensão dentro e fora da sala de aula, contribuindo para uma formação reflexiva orientada para a intervenção sobre a realidade local. Isto implica que além da caracterização da sociedade contemporânea, de acordo com importantes abordagens dentro da teoria social contemporânea, as aulas são conduzidas para que ao final do semestre os(as) estudantes elaborem um projeto de intervenção sobre algum desafio da região (com o tempo irie socializar as experiências dos semestres anteriores). Desta maneira, os Desafios Sociais Contemporâneos serão abordados em ressonância com a missão do plano de desenvolvimento institucional da Furb, visando fomentar o desenvolvimento socioeconômico sustentável e o bem-estar social. Tanto a caracterização da sociedade contemporânea, quanto a elaboração do projeto de intervenção serão realizados de maneira colaborativa e dialógica, buscando a constante interação entre a teoria e a prática. A disciplina é organizada em quatro unidades básicas, nas quais é respectivamente: i. Caracterizada a sociedade contemporânea de acordo com a perspectiva sociotécnica, cujo argumento principal reside na co-construção entre conhecimento e ordem social; ii. Analisada a influência do aquecimento global na reconfiguração dos desafios sociais (e técnicos) contemporâneos; iii. (são) Identificadas as influências sociais, técnicas e econômicas (e uma proposta de seu gerenciamento) no desenvolvimento e institucionalização de tecnologias limpas; iv. Desenvolvida uma proposta de intervenção na realidade visando propor ações práticas para a solução de desafios sociotécnicos locais. Desta maneira, a disciplina se alinha às diretrizes da Furb para o Ensino, de acordo com a qual a aprendizagem é vista como processo contínuo, flexível e adaptado à realidade dos cursos. O conteúdo programático estabelece um diálogo acadêmico com as áreas dos ‘estudos de inovação’ (innovation studies), ‘estudos sociais da ciência e da tecnologia’ (social studies of science and technology) e ‘transições para a sustentabilidade’ (sustainable transitions) por meio de materiais de apoio publicados em revistas científicas cuja relevância é internacionalmente reconhecida (num próximo momento pretendo oferecer esta mesma disciplina em Inglês).

Acredito que desta forma a prática pedagógica seja mais democrática, mais acessíveis (onde o resultado das pesquisas realizadas em sala não seja escondido pela ferramenta do artigo científico a ser realizado no final da disciplina), e acima de tudo mais relevantes para a sociedade. Não espero, no entanto, solucionar o problema da obsolescência da universidade, mas somar esforços junto àqueles que estão tentando torná-la realmente inovadora. Com este texto quero desafiar os meus alunos e alunas a se dedicarem ao máximo nas realização das atividades do curso e os colegas de profissão a darem suas sugestões e contribuições para o debate.

 

Bibliografia citada no texto:

HUGHES, Thomas Parker. The evolution of large technological systems. In: BIJKER, Wiebe E; HUGHES, Thomas P ; PINCH, Trevor J (Org.). The social construction of technological systems: New directions in the sociology and history of technology, 1987.  p. 51-82.

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