#004 – O lugar da tecnologia na produção e na socialização do conhecimento em Ciências Sociais.

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Para quem é familiarizado com o campo dos Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia, esta reflexão pode ser antiga. Aqui quero argumentar que pensar a relação entre tecnologia e o ensino de sociologia deveria ser uma atividade constante em todos os cursos de ciências sociais. Mais do que buscar novas metodologias capazes de ‘transmitir’ o conhecimento sociológico para as novas gerações, a articulação entre Tecnologia e Ciências Sociais deveria ser simultaneamente um problema de pesquisa e uma agenda ação transformadora, capaz de embasar uma nova forma de se fazer sociologia, na graduação e no ensino médio, mas principalmente fora da sala de aula.

Precisamos nos engajar numa re-construção das ciências sociais, que deve ter como objetivo máximo a reafirmação da sua relevância política e intelectual. As ciências sociais, em especial a Sociologia, a Ciência Política e a Antropologia, precisam ser reconhecidas pelo seu valor estratégico no desenvolvimento de novas políticas (públicas e empresariais) e de novas tecnologias (sociais e ‘privadas’) capazes de promoverem/construírem um modelo de desenvolvimento ambientalmente sustentável, economicamente justo, culturalmente tolerante e politicamente liberal. Algo intrinsicamente revolucionário para os dias atuais.

Esta tarefa não é simples e requer um esforço duplo. Primeiro, é preciso conduzir uma ampla reformulação das premissas analítico-conceituais que guiam as reflexões típicas das ciências sociais sobre importantes questões sociais na América Latina, como pobreza, exclusão, desigualdade, violência e democracia. Segundo, também precisamos realizar uma reconstrução metodológica, transcendendo os métodos tradicionais de coleta & análise de dados e, principalmente, de socialização das reflexões realizadas no campo.

As ciências sociais tem tradicionalmente dado pouca atenção ao papel desempenhado pelos objetos técnicos na constituição do ordenamento social. Vivemos em sociedades profundamente influenciadas por artefatos tecnológicos e seu impacto sobe as nossas atividades cotidianas precisa ser melhor compreendido. Por outro lado, a informatização e a digitalização do nosso cotidiano requer que nós nos aventuremos por novas maneiras de socialização do conhecimento sobre o que nos permite viver em sociedade. Fazendo esta dupla reformulação, das premissas analítico-conceituais e das metodologias de produção e divulgação do conhecimento específico das Ciências Sociais, poderemos contribuir de maneira mais efetiva para a realização da nossa missão de produzir conhecimento cientificamente sólido e socialmente relevante.

Podemos problematizar a atual situação das ciências sociais com uma comparação com as ciências aplicadas. A termodinâmica permitiu o uso do vapor na produção dentro das fábricas e deu as bases para o desenvolvimento do motor de combustão interna; a Química, trouxe ‘vantagem competitiva’ para a indústria têxtil e maior produtividade para o setor agrícola; a física, ‘descobriu e controlou’ a eletricidade e com isso transformou mais uma vez o ritmo de vida nas grandes cidades. É inclusive neste contexto que surgiu a Administração Científica, método através do qual se mede e busca ampliar a ‘efetividade’ dos trabalhadores dentro das fábricas. Há nestes processos, uma crescente associação de elementos ‘naturais’ às práticas sociais.

As maneiras pelas quais as pessoas se relacionam, constroem identidade, desenvolvem e alteram hábitos alimentares, lutam contra o capital, se protegem de pragas como o carbúnculo (Antraz), viajam, transportam bens, etc, são processos intimamente influenciados por conhecimentos científicos e (novos) artefatos tecnológicos. As ciências aplicadas, ao que me parece, tiveram muito mais êxito em transformar o mundo de maneira duradoura do que as ciências sociais. Isto porque enquanto as ciências sociais insistem numa separação analítica entre aquilo que é construído socialmente (a cultura) e aquilo que é construído tecnicamente (os fatos científicos), as ciências aplicadas tem tido muito mais êxito em realizar estas associações heterogêneas e com isso agir sobre o mundo.

Por isso, as ciências sociais, deveriam se inspirar nas estratégias políticas das ciências aplicadas e começarem a construir associações heterogêneas mais duradouras, cristalizadas por novas técnicas de construção e socialização do conhecimento da área. Não basta promover uma consciência crítica. A emergência de uma modernidade reflexiva e da revolução digital, evidencia que a sociedade é capaz de identificar os limites ao desenvolvimento capitalista, pois ‘a perspectiva crítica’ está difusa em inúmeros partidos políticos, em movimentos sociais, em especialidades e congressos científicos, em páginas do facebook, em cursos de um final de semana sobre como funciona a sociedade, em associações de bairro, em cooperativas populares e de crétido, em grupos hackers, e até mesmo em modelos de organização da produção que adotam metodologias de trabalho horizontais.

Os desafios das ciências sociais no Sec. XXI incluem o reconhecimento de que há um processo de desmonte do Estado brasileiro, inclusive da educação publica. O nosso espaço de trabalho está se alterando e precisamos nos reinventar. Neste momento, é essencial dialogar com movimentos sociais, com empresas e com organizações não governamentais. Precisamos lidar com o surgimento de novas demandas econômicas e/ou sociais, como o desenvolvimento de tecnologias limpas, de modelos de transportes eficientes, ou técnicas de promoção da saúde para a terceira idade e até mesmo para portadores de limitações físicas. Em especial, as ciências sociais não podem se fechar na crítica da sociedade. Precisamos nos orientar para a construção de uma realidade mais justa à partir da articulação dos interesses dos diversos atores sociais. É neste ponto que as ciências sociais deveriam se tornar indispensáveis.

Enquanto um conjunto de saberes capaz de oferecer interpretações sobre o mundo, capaz de identificar tendências comportamentais e de associar a microfísica do poder às estruturas socioeconômicas mais amplas, que influenciam a vida dos indivíduos positiva e negativamente, as ciências sociais deveriam se colocar como um ponto de passagem obrigatório para a construção da ‘Era Contemporânea’. Em outras palavras, isto significa abandonar a ação política de desconstrução da realidade para a adoção de um posicionamento diplomático e propositivo. Isto significa adotar o diálogo com os sujeitos da pesquisa como regra de ouro da metodologia para a construção de um outro mundo possível.

*Post inspirado na minha contribuição para a mesa de debate sobre Tecnologia e Ensino de Sociologia, durante a Semana Acadêmica de Ciências Sociais (FURB-2016).

Bibliografia de referência:

W.E. Bijker, T.P. Hughes, T. Pinch, The Social Construction of Technological Systems: New Directions in the Sociology and History of Technology, Anniversary edition, MIT press, Cambridge, Massachusetts – London, USA – England, 2012. doi:10.1017/CBO9781107415324.004.

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