#005 – Não acabem com os Desafios Sociais Contemporâneos!

Há na Furb uma mobilização para retirada da disciplina de Desafios Sociais Contemporâneos (DSC) da grade dos cursos de graduação e isto é um erro. A disciplina de DSC tem a tarefa de confrontar o graduando com a assustadora pergunta sobre a sua responsabilidade sociopolítica. “Como você contribui para a construção de um Brasil melhor?”. Uma universidade que pretende continuar sendo referência de qualidade não pode abrir mão da responsabilidade de formar cidadãos para o século XXI.

É claro que nem sempre os objetivos da disciplina são alcançados. Quem já cursou a disciplina e quem já ministrou ela sabe disso. Muitas vezes temos dificuldades em convencer os estudantes da importância dos DSC para a sua formação. Pior, acabamos afastando aqueles que mais precisavam ser cativados. Mesmo assim, eu não acredito que o problema seja com a disciplina. As vezes o problema é com o/a professor/a, outras com os/as estudantes. Mas estas duas situações refletem a maneira como a disciplina está inserida na universidade. A maior dificuldade está em conduzir e manter um trabalho consistente, mais próximo dos cursos, que seja capaz de trazer sugestões concretas de como cada profissional pode contribuir neste processo de superação dos problemas que afetam as sociedades contemporâneas. Entre o mundo ideal e o mundo real, no entanto, há um abismo gigantesco.

A associação entre as exigências de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo à crescente velocidade com que surgem novidades em todos os campos do saber faz com que a formação superior seja vista como um meio para aquisição de habilidades técnicas. A formação para o mercado se torna meta a ser alcançada, tanto por estudantes quanto pelos próprios cursos. Em meio a esta busca por aperfeiçoamento técnico e qualificação para o mercado, a disciplina de DSC acaba sendo vista como uma distração ‘das coisas mais importantes’. Pensar sobre os DSC não traz benefícios práticos imediatos, causa desconforto e favorece uma reflexão crítica capaz de sustentar ações políticas de transformação social. Vivemos em um arranjo social, político e econômico que reduz a nossa capacidade de reflexão da mesma maneira que nos desmobiliza do engajamento político. Karl Marx já disse que no Capitalismo o trabalhador é alienado [excluído] da possibilidade de pensar e compreender as suas condições reais de vida. Max Weber, outro clássico da Sociologia, já afirmou que é a multiplicação de processos burocráticos aniquila a nossa capacidade de pensarmos alternativas aos problemas da modernidade.

Se não conseguimos tempo, nem temos conhecimento necessário para compreender a nossa posição na sociedade, qual será o nosso papel na emergente sociedade do conhecimento?

Há fortes indícios de que o mundo está passando por transformações tecnológicas e econômicas cujo impacto pode ser maior do que aquele causado pela primeira Revolução Industrial. O impacto das atividades industriais sobre o meio ambiente já é responsabilizado pela emergência de uma nova era geológica, o Antropoceno.  (AMOS, 2016; LATOUR, 2014). Mas estas alterações não ficam restritas ao meio ambiente, elas intensificam os atuais desafios sociais. A soberania dos países tenderá a ser desrespeitada na disputa por recursos naturais, como petróleo e água; territórios serão inundados e tantos outros se tornarão desertos, forçando as pessoas a migrarem, e reduzindo a disponibilidade de alimentos. (WERRELL; FEMIA, 2017). Obviamente, estas transformações impactam a vida das pessoas no Brasil. As transformações econômicas internacionais se refletem no conjunto de medidas de austeridade, que estão sendo implementadas no país.

Seremos todos afetados pelas mudanças que estão em curso e os desafios para vivermos em sociedade não diminuirão em um passe de mágica. O mínimo a fazer é decidir qual papel gostaríamos de desempenhar neste processo. Iremos estar preparados para os Desafios que o século XXI vai nos apresentar ou seremos apenas espectadores das decisões tomadas por outras pessoas? Quando iremos pensar sobre estas mudanças?

Sabem, eu não sou o único a achar que mesmo as áreas mais técnicas precisam de formação em humanidades. Recentemente, uma engenheira considerada pela Forbes como fazendo parte do/as profissionais de tecnologia mais influentes abaixo dos 30 anos, relatou o quanto se arrepende de não ter dado maior valor para as aulas de humanidades. Ela diz que quando se viu atuando no mundo real, desenvolvendo tecnologia e alterando a vida das pessoas ela percebeu o quanto era importante refletir seriamente sobre o tipo de impacto que queria causar na sociedade. (CHOU, 2017). Ela também não é uma andorinha solitária. Ao final do primeiro semestre de 2017 eu solicitei que os/as estudantes elaborassem uma redação sobre a importância da disciplina e os resultados foram gratificantes!

“O que pude perceber em Desafios, foi uma conscientização, não só minha, mas de grande parte dos alunos sobre os problemas da sociedade, onde pela primeira vez da minha vida escolar/acadêmica vi um professor colocando “Negro Drama” numa sala, com a grande maioria de pessoas brancas. Se isso não era uma afirmação que nós precisávamos abrir os nossos olhos (privilegiados) para que o direito que vemos não é justo, não é igualitário, não é humano, “me ver pobre, preso ou morto já é cultural”. Como diria Malcom X “Não há capitalismo sem racismo”. E não só sobre um racismo, é sobre pessoas LGBTQ, capitalismo desatualizado, e de como em pleno século 21, estamos ainda distantes de uma real experiência social-democrática.” (estudante da disciplina de DSC ao final do primeiro semestre de 2017).

“Desafios sociais contemporâneos foi àquela matéria que fez a gente sair da nossa caixinha, de abrir a mente e discutir. Durante o semestre foi possível ver a importância do debate na nossa vida acadêmica, da formação de opinião e de visões sobre os reais problemas que nossa sociedade enfrenta nos dias atuais. Problemas que muitas vezes são ocultados pela mídia que tenta manipular a imagem de um mundo melhor. Dentro da disciplina foi possível ver um pouco da verdadeira dimensão dos problemas que estamos enfrentando. Foi possível ver a realidade sobre a pobreza que tanto aflige a população mundial e principalmente a brasileira, o descaso com nossa saúde, educação e segurança, onde é feito vista grossa para os reais problemas. Sem contar a dificuldades enfrentadas por LGBT’s que é de se viver em uma sociedade preconceituosa, as dificuldades enfrentadas no dia a dia, os medos de andar na rua simplesmente por sua orientação sexual.” (estudante da disciplina de DSC ao final do primeiro semestre de 2017).

Assim como os dois relatos acima, existem muitos outros. Depois de muito esforço é possível ver que está aumentando o número de estudantes que chegam às primeiras aulas com desconfiança e desdém, mas terminam o semestre muito mais conscientes dos problemas que enfrentamos. Violência, urbanização, sustentabilidade ambiental, acesso a saúde, relações de gênero, relações internéticas, desigualdade social e democracia. Os problemas são variados e complexos, e por isso mesmo devemos usar a sala de aula para discutir o currículo oculto, de servidão, e obediência, e passividade, que o processo educacional nos faz incorporar.

Nós professores desta disciplina temos uma missão de enorme responsabilidade. Temos que auxiliar centenas de estudantes a trilharem sua trajetória de emancipação intelectual e de comprometimento com o bem comum. Ao invés de buscar substituir esta disciplina por outras, ‘mais próximas da realidade dos estudantes’, a Furb deveria concentrar esforços em qualificar a disciplina, em fidelizar os professores juntos aos cursos com quem tem trabalhado, em criar condições estruturais e institucionais para que a disciplina possa produzir conhecimento sobre a realidade local. Mais do que a transmissão de informações para os estudantes, o conhecimento produzido nesta disciplina poderia subsidiar a elaboração de políticas públicas, de estratégias empresariais e de planos de ação das organizações do terceiro setor. Talvez a lição mais dolorida que a disciplina pode passar para a comunidade universitária é de que não existe alternativa real para o modo de organização sociopolítica e econômica na qual estamos se não o próprio envolvimento na construção, e constante reconstrução, da própria alternativa.

Se você também acha que a universidade deve propiciar um espaço de reflexão sobre os DSC para todos seus estudantes, compartilhe este texto. Talvez a gente consiga convencer alguns estudantes de que a Disciplina de Desafios Sociais Contemporâneos é importante, sim. Se você não concorda, por favor responda a enquete abaixo. Pode ser que eu esteja enganado e tenha que aceitar as mudanças curriculares que estão por vir. E, por fim, se você foi meu aluno no passado e a sua experiência não foi muito feliz, eu peço desculpas. Todos/as os/as profissionais em início de carreira cometem erros. Não foi diferente comigo. Eu lembro destes erros e uso eles como motivação para o aperfeiçoamento constante.

 

Referências bibliográficas:

AMOS, J. O mundo entrou mesmo em uma nova época geológica? BBC Brasil, [S.l.], 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160108_antropoceno_cientistas_ja_cc&gt;. Acesso em: 1o jul. 2017.

CHOU, T. A leading silicon valley engineer explains why every tech worker needs a humanities education. Quartz, [S.l.], 2017. Disponível em: <https://qz.com/1016900/tracy-chou-leading-silicon-valley-engineer-explains-why-every-tech-worker-needs-a-humanities-education/?utm_source=atlfb&gt;. Acesso em: 7 jul. 2017.

LATOUR, B. Para distinguir amigos e inimigos no tempo do antropoceno. Revista de antropologia, são paulo, usp, 2014. v. 57, n. 1, p. 11–31. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/ra/article/view/87702&gt;.

WERRELL, C. E.; FEMIA, F. Epicenters of climate and security: the new geostrategic landscape of the anthropocene. Washington, DC, USA: [s.n.], 2017. Disponível em: <https://climateandsecurity.org/epicenters/&gt;.

Fonte da imagem destacada: http://www.stevecutts.com/

 

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