#007 – Como escrever?

Estou escrevendo hoje para apresentar um conjunto de sugestões sobre como escrever. Na verdade, sobre como escrever de maneira mais clara e objetiva. Tenho identificado algumas dificuldades que a maior parte dos meus estudantes encontra para escrever textos mais longos, em especial os trabalhos finais para as aulas de Desafios Sociais Contemporâneos. Por isso, estas notas servem primeiro como orientação geral para quem estuda comigo, mas também pode ajudar outras pessoas que querem aprimorar as suas técnicas de escrita.

Todos os trabalhos já receberam as orientações para o embasamento teórico, por isso vou focar as dicas na forma de elaborar e organizar o texto final. O embasamento teórico do texto de vocês deve ser construído tendo o texto do Giddens como referência básica, as aulas como contextualização geral dos temas e deve utilizar dados estatísticos para ‘provar’ as suas afirmações. De um modo geral, isto vocês já estão fazendo. A maior dificuldade que os grupos encontram, me parece, está em conseguir definir/descobrir se o texto está no caminho certo.

Para saber se o texto está no caminho certo não basta que vocês escrevam o texto. Vocês precisam revisar e reescrever ele. O primeiro rascunho, a primeira versão é sempre aquela versão onde nós tentamos colocar todas as ideias no papel (na tela do computador) e que sempre fica bagunçada, como se estivéssemos atirando para tudo quanto é lado. Tudo bem, é assim mesmo e esta versão é importante para a identificação de todos (ou pelo menos da maioria) dos tópicos que vocês irão tratar no trabalho, mas é preciso ‘desbagunçar’ o texto. Para ‘desbagunçar’, vocês precisam, revisar a estrutura do texto, a sequência dos parágrafos, o tamanho das frases, o uso de referências e a linguagem utilizada.

O primeiro passo concreto para ‘desbagunçar’ o texto é se certificar de que o texto tenha, pelo menos, três seções: uma introdução, o desenvolvimento e a conclusão.

Muitas vezes usamos a introdução para apresentar o tema, mas este não é o propósito principal da introdução. Na verdade, a apresentação do tema é uma das funções da introdução. Vocês ainda precisam apresentar o objetivo do texto e a maneira como vocês organizaram o texto para defender a opinião de vocês.

Seguindo esta lógica, o primeiro parágrafo do trabalho deve apresentar:

  • os objetivos do texto. Para escrever os objetivos, descreva qual foi a intenção da pessoa que escreveu o texto.
  • a justificativa. Porque a pessoa acha que o texto é importante? Ele vai contribuir com um debate teórico, com a transformação de algum aspecto da sociedade?
  • o argumento central do texto. Qual a opinião da pessoa que escreveu o texto sobre o problema que está sendo discutido? Lembrem-se que o texto precisa ser escrito para defender esta opinião!

No segundo parágrafo, vocês podem começar a fazer a contextualização do tema. Para ajudar na contextualização vocês irão apresentar as características gerais do tópico e também o recorte feito. O recorte é a maneira pela qual vocês definiram o foco do trabalho. Vocês não vão conseguir olhar para todos os aspectos de um tema maior nesse trabalho, é preciso focar atenção em um ou alguns pontos que vocês consideram essenciais. Quais detalhes do tema serão abordados? Para escrever este parágrafo é útil organizá-lo no formato de uma pirâmide inversa, indo dos aspectos mais gerais para os mais específicos do tema abordado. As informações para a redação podem ser coletadas a partir do questionamento das raízes históricas do tema.

O terceiro parágrafo da introdução deve apresentar a organização do próprio trabalho. Uma característica comum a todos os bons textos científicos é que eles conseguem guiar o leitor. Nós, leitores dos seus textos, não estamos dentro das suas cabeças e não conseguimos imaginar aonde vocês querem chegar. Por isso, as conexões mentais que vocês fizeram para entender o problema, desenvolver o argumento e chegar nas suas conclusões deve ser descrita. Quem está lendo o texto está cego e precisa de orientações constantes sobre os caminhos percorridos por quem escreveu. Como um fio de Ariadne, vocês precisam dizer quais são as principais seções do texto, seus objetivos e a sequência na qual os temas são abordados. Feitas as orientações de navegação, passem para o desenvolvimento.

No caso do texto para a minha disciplina, o desenvolvimento deve ser organizado de maneira a responder um conjunto de perguntas, previamente apresentadas aos grupos. Assim, cada subseção do desenvolvimento deve tratar, na sequência: i. das abordagens teóricas sobre o tema; ii. dos impactos sociais, econômicos e políticos do problema sobre a organização da sociedade; iii. dos dados empíricos sobre o problema no país, estado, região e cidade. Só a articulação destas informações no desenvolvimento será capaz de conduzir a conclusões sólidas e pertinentes.

Escrever as conclusões é, geralmente, tão difícil quanto escrever a introdução. Só dá para fazer um bom serviço depois que terminar de escrever a parte de desenvolvimento. Só terminado o desenvolvimento que a pessoa que escreveu vai ter certeza total sobre a maneira como organizou o texto e, principalmente, sobre os resultados do estudo. Os resultados devem ser tanto teóricos quanto práticos. Por isso, é preciso destacar como o trabalho ajudou a ‘entender’ melhor o problema abordado e como esta maneira de olhar para o problema contribui para o conjunto de reflexões mais amplas sobre este tema. As conclusões também devem dar destaque às maneiras pelas quais este trabalho pode contribuir para a elaboração de soluções práticas ao problema. Via de regra, alguns trabalhos terão resultados mais práticos do que outros, e isto é normal. Deem destaque para os pontos positivos do trabalho de investigação que vocês realizaram.

O segundo passo para ‘desbagunçar’ o texto é investir tempo na avaliação e reconstrução dos parágrafos.

Se vocês voltarem ao meu tópico anterior vocês irão perceber que cada parágrafo da introdução é dedicado à um sub-tópico dentro do grande tema da dificuldade de redigir um bom trabalho de final da disciplina de Desafios Sociais Contemporâneos. Além disso, vocês devem perceber que dentro deste tema, os parágrafos anteriores estão localizados dentro dos tópicos de organização da introdução, do desenvolvimento e da elaboração das conclusões. Isto mostra que é preciso ficar atento para que cada parágrafo aborde um assunto, ofereça uma reflexão que se sustenta de maneira isolada, mas que está diretamente conectada ao conjunto das reflexões promovidas pelo texto como um conjunto.

Não existe apenas uma boa maneira de fazer esta revisão dos parágrafos. É preciso reler o texto em busca de frases que abordem o mesmo tema e coloca-las próximas. É preciso decidir se as frases merecem um parágrafo ou uma seção e é preciso organizar as seções e os parágrafos em uma sequência lógica, que apresente continuidade temática e complexidade gradativa.

Feito esta estruturação das seções, dos tópicos e dos parágrafos, é preciso reescrever os parágrafos. Eles devem conter, pelo menos, três frases. Uma de apresentação ao tópico, uma de desenvolvimento da ideia e uma de conclusão ou de ligação com o próximo parágrafo. Um parágrafo é uma mini-redação e por isso deve ser organizado como tal.

Os parágrafos devem ser claros, não podem ser muito longos e precisam estar ‘costurados’ entre sí. Para garantir a clareza do texto vocês deveriam optar por frases e parágrafos curtos.  Frases curtas não tem mais do que 25 palavras e parágrafos curtos tem até 115 palavras. As ideias mais complexas precisam ser organizadas em seções compostas por vários parágrafos interconectados, o que garante fluidez ao texto. É a constante preocupação e edição do texto para que os parágrafos estejam ligados entre si que torna um texto fácil de ser lido sem que seja superficial demais.

O terceiro passo para ‘desbagunçar’ o texto é a revisão da linguagem usada no texto.

Revisar a linguagem usada no texto demanda uma atenção especial para o uso de dados – em figuras ou tabelas – , de referências bibliográficas, e e para dar consistência para a redação.

Nós temos por hábito reproduzir ideias e informações coletadas ou elaboradas por outras pessoas. Por exemplo, muitos dos meus estudantes dizem que o Brasil é o país com a maior carga tributária do mundo e isso faz com que o pais não se desenvolva porque impede o investimento em inovação por parte das empresas. Eu particularmente, não acredito que esta afirmação seja totalmente verdadeira. Por isso, é essencial que aqueles que fazem este tipo de afirmação ‘provem’ da onde tiraram estes dados. Qual foi a pesquisa, ou reportagem que amparou esta afirmação/opinião? Busquem sempre ‘provar’ o que vocês estão falando com indicação de onde vocês retiraram estas afirmações.

Os dados para sustentar os argumentos nos artigos podem ser dados quantitativos e qualitativos. Os dados quantitativos podem ser coletados pelas mais diversas pesquisas estatísticas sobre o Brasil ou sobre Blumenau. Já os dados qualitativos podem ser coletados através de entrevistas, imagens, relatos históricos e mesmo outras análises científicas. Eu geralmente, tento usar dados estatísticos e qualitativos porque penso que eles são complementares.

De uma forma ou outra, estes dados precisam ser apresentados no texto de maneira contextualizada. Você não pode simplesmente jogar uma tabela ou uma figura no meio do texto sem escrever sobre eles. Antes de apresentar os dados é preciso falar sobre eles, preparar quem está lendo o para a chegada de uma tabela ou de uma figura. Após a apresentação dos dados, é preciso refletir sobre como estes dados reforçam ou contestam o que vocês apresentaram no texto anterior. Os dados não são autoexplicativos, eles precisam ser discutidos.

De maneira semelhante, é preciso trazer para dentro do texto as teorias científicas que dão sustentação ao ponto de vista dos autores. Com isso eu quero dizer que vocês devem usar e abusar das citações indiretas – paráfrases – e das citações diretas. Um texto sem citações e sem dados é um texto de romance, não literatura científica. Mas, não abusem, só usem as citações quando elas ajudam – não usem citações quando elas atrapalham – no desenvolvimento do argumento de vocês e sempre, SEMPRE, apresentem as referências bibliográficas usadas no texto de vocês. Se você leu um blog, uma noticia, um artigo científico ou um livro você precisa citar a fonte da sua reflexão. Se não fizer você estará cometendo plágio.

O último passo para revisar a linguagem usada no texto é desenvolver o tom e construir a consistência do texto. Abram mão, deixem de lado, ignorem de vez a voz passiva e o gerundismo. O problema não estará sendo resolvido por uma entidade abstrata num momento imaginário. Tampouco, o problema foi se tornando mais complexo de maneira mágica num tempo impreciso. Usem verbos ativos. ‘Deem nome aos bois!’ Usem formas consistentes e de fácil compreensão no momento de fazer referência à períodos históricos. Sejam precisos. O Brasil não se tornou independente em 7/7/22, mas em Sete de Setembro de Mil Oitocentos e Vinte Dois. A grande depressão também não aconteceu no final da década de 20, mas no final da década de 1920. E por fim, verifiquem que todos os assuntos/tópicos que foram mencionados na introdução tenham sido trabalhados no desenvolvimento do texto. Só assim vocês poderão retomar a estes tópicos nas conclusões. Salvo raríssimas exceções, vocês não podem trazer um tópico novo ou dados novos nas conclusões. Se eles precisam ser mencionados nas conclusões, eles deveriam ter sido abordados na introdução e no desenvolvimento do texto.

Obviamente, estas sugestões não são estáticas e devem ser adaptadas dependendo do tipo e dos objetivos dos textos que vocês estão escrevendo. Mesmo assim, as dicas servem como orientação geral para a redação de textos analítico-dissertativos. Não esperem, contudo, terem êxito total na primeira redação mais longa que fizerem. Escrever é uma habilidade que se desenvolve com muita persistência e treino. Eu mesmo sei que tenho muito a melhorar, até criei um blog para me forçar a escrever com mais frequência.

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