#008 – A capacidade de agência do nariz de palhaço.

Um dos principais debates nas teorias sociais busca responder o quanto o ser humano e suas ações são influenciados pelo contexto social. Você certamente já duvidou da sua independência frente todas cobranças da sociedade. Também já deve ter se sentido completamente livre das amarras daquilo que os outros pensam. A verdade é que somos simultaneamente condicionados e condicionantes, constructos e construtores do tecido da sociedade. Por um lado, somos resultado da estrutura, dos fatos sociais, dos habitus e de tantos outros agenciamento sociotécnicos que ditam quem somos, como trabalhamos, como pensamos e como nos comportamos cotidianamente. Por outro, somos entidades dotadas de agencia, seres sencientes corresponsáveis pela reprodução ou transformação da sociedade, sua estrutura e suas práticas.

Usando o exemplo do nariz de palhaço, eu te convido a refletir sobre a influência da sociedade sobre o nosso comportamento e o papel do nosso comportamento na construção de uma sociedade melhor.

O nariz de palhaço faz parte da vestimenta de um artista cuja função é entreter grandes audiências através de brincadeiras e da encenação de situações ridículas, improváveis e trágicas, e que por isso são consideradas cômicas. A graça do palhaço não reside no seu nariz ou maquiagem exagerada, nem no tamanho avantajado dos seus sapatos, mas por se colocar em situações ridículas demais para ser verdade. A tradição dos palhaços no Teatro pode ser encontrada nas culturas antigas e tem mais de quatro mil anos. Palhaços já foram caracterizados como assistentes desastrados, bobos da corte, e artistas de rua que ganhavam a vida fazendo as pessoas rir por causa da sua falta de jeito ou elegância. Na corte, o bobo podia falar o que quisesse, podia até criticar as decisões do seus soberanos desde que a plateia fizesse o público rir. Na idade média, os palhaços de rua eram artistas que ganhavam a vida criticando a igreja e a nobreza, fazendo a população rir da sua desgraça coletiva.

É incrível o quanto a profissão de professor ou professora se assemelha à de palhaço. Entretemos multidões, fazemos críticas à sociedade da qual somos parte, somos bobos e somos desajeitados. E a nossa sobrevivência depende da gargalhada do público. Mas, apesar das semelhanças, não somos palhaços. Somos profissionais, comprometidos com a melhoria da qualidade de vida das pessoas através da educação.

Enquanto profissionais, somos indivíduos cuja capacidade de ação é fortemente cerceada pelo meio no qual estamos inseridos. Sofremos as mais variadas formas de agressão, física e moral. A violência sofrida por uma professora em Indaial é, infelizmente, só mais um dos indicadores que colocam o Brasil em primeiro lugar no ranking da OCDE sobre violência contra os professores. À violência física devemos ainda adicionar a violência moral e simbólica, que pode ser identificada na precarização da profissão. Os exemplos desta variam desde a campanha publicitária da Anhanguera Educacional que trazia o apresentador Luciano Huck dizendo: “Torne-se professor e aumente sua renda” até a recusa dos governos federal, estadual e municipal em reajustar o salário dos profissionais da educação. Parece absurdo, eu sei, mas estas agressões são tão graves como as agressões pelas quais estão passando milhares de estudantes.

Da mesma forma como os professores sofrem os limites impostos pelo sistema de ensino, os estudantes tem sua liberdade, curiosidade e criatividade constantemente apagadas por um modelo de ensino fabril e por matrizes curriculares tecnicistas. Resquício da primeira revolução industrial, a educação contemporânea tem como principal objetivo a formação de uma mão de obra industrial urbana. Seja no trabalho fabril ou no exercício das funções mais liberais, escolas e faculdades se orientam para formar a grande massa de trabalhadores, cuja contribuição social reside na produção e consumo de bens ou prestação e consumo de serviços. Ao associarem o consumo à uma recompensa pelo bom trabalho realizado individualizam o bem-estar. Não é preciso entender como o padrão de consumo impacta negativamente o meio ambiente, tampouco é importante contribuir na construção de um projeto civilizacional comum. Claro, contribuir para a construção de um projeto civilizacional ambientalmente sustentável e socialmente inclusivo requer esforço. É preciso compreender a sociedade na qual vivemos e as transformações pelas quais estamos passando. Tais tarefas são praticamente impossíveis de serem realizadas por aqueles que vivenciam uma profunda exclusão tecnológica.

Mesmo vivenciando as transformações trazidas pela consolidação das Tecnologias de Informação e Comunicação, somos digitalmente excluídos. Há uma falta de educação generalizada quanto ao uso das TICs. Assim como qualquer outra tecnologia, as TICs precisam ser reguladas técnica e moralmente. As pessoas precisam ser treinadas, educadas para aprenderem como e quando e qual a forma mais apropriada de se utilizar um novo artefato tecnológico. Saber usar a internet não se resume a acessar o Facebook, conversar no WhatsApp ou curtir algumas fotinhos no Instagram. A inclusão tecnológica, para ser de alguma maneira útil, precisa ser acompanhada de uma ampla educação tecnológica para o século XXI.

Tal projeto educacional requer, acima de tudo, a compreensão dos impactos trazidos pela revolução digital e requer o reconhecimento coletivo da nossa corresponsabilidade na construção de uma sociedade Democrática, Justa e Sustentável, assim como também na construção e desenvolvimento de um aula interessante. Há uma tendência estatística apresentada pela experiência cotidiana de que os que ficam indignados com a baixa qualidade das aulas, com a falta de motivação dos professores e com a irrelevância dos assuntos abordados em sala são os mesmos que não participam dos debates, tem resistência em realizar as atividades propostas em sala e passam aulas inteiras no zap, insta ou face, mas mesmo assim tem boas notas. Em tempos de crise, universidades que se sustentam das mensalidades pagas pelos estudantes gostam de evitar a evasão escolar.

Infelizmente, o modelo educacional fordista, criou indivíduos passivos. Na sala de aula somos estudantes passivos, recebemos o conhecimento, constantemente com receio de expor nossas fraquezas ou mesmo de discutir nossas ideias. Nos tornamos passivos no ambiente de trabalho, abaixamos as cabeças para os chefes mesmo quando estão errados. Somos politicamente passivos, terceirizamos a responsabilidade política para os nossos representantes. Por fim, nos retiramos a responsabilidade com a construção do futuro do país.

Assim como não existe um salvador da pátria capaz salvar o Brasil sozinho, não existe professor ou professora capaz de motivar aqueles que não reconhecem o quanto são importantes e essenciais para a construção de uma sociedade melhor. Reconhecer que somos constructos sociais não implica, como querem argumentar muitos dos pseudo-críticos das ciências sociais, culpar ‘o sistema’ pela nossa falta de sorte na vida. Significa apenas compreender que o nosso comportamento não é aleatório e independente do meio social, mas é condicionado pelo conjunto de alternativas previamente existentes no meio do qual fazemos parte. De dentro deste conjunto de alternativas é que escolhemos como vamos agir. Mas para agir é preciso reconhecer as diversas opções.

As horas de preparo, dedicação e seriedade do profissional que constrói um projeto de vida dedicado a formar profissionais melhores são as mesmas horas de preparo, dedicação e seriedade que vocês estão investindo na sua formação profissional. Como vocês gostariam de ser tratados durante o exercício da sua profissão? Se o agenciamento sociotécnico de um professor com um nariz de palhaço não é capaz de mudar o seu comportamento, o que consegue consegue te fazer repensar suas ações?

 

 

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