#009 – Sociologia e Resistência em tempos de Escola Sem Partido.

Aqueles que ousam investigar porque agimos como agimos em sociedade dificilmente escapam da reflexão sobre as fronteiras entre fazer ciência e fazer política. No Brasil este debate está marcado por uma intensa discussão sobre a necessidade de controlar a influência da educação escolar na reprodução de posicionamentos que favoreçam o ponto de vista ‘ideológico de esquerda’. Há uma cruzada para que as práticas escolares que não sejam condicionadas por interesses político partidários, que visa combater a ‘doutrinação político-ideológica’. Esta cruzada tomou a forma de vários projetos de lei (apresentados nas Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional)que propõem defender a ‘Escola Sem Partido’. Tal cruzada se justifica na promessa de garantir que as crianças e os jovens tenham educação de qualidade, politicamente independente de seus mestres e cujo conteúdo não confronte os valores professados dentro do seio familiar.

Se você quer saber um pouco mais sobre o projeto, sugiro que assista a explicação de Miguel Nagib, Fundador e Coordenador ‘Escola Sem Partido’.

Muitos pais bem-intencionados apoiam este movimento, e isto é perfeitamente compreensível. No entanto, este debate está cognitivamente limitado, o que compromete as mais nobres intenções de quem apoia esta iniciativa. Antes de sair praguejando por aí que a escola não tem o direito de influenciar o pensamento das crianças e dos jovens, precisamos levar em consideração que:

  1. nós nos desenvolvemos a partir das relações que estabelecemos com os diversos elementos que fazem parte dos contextos nos quais vivemos;
  2. a educação escolar se tornou um ponto de passagem obrigatória para o aprendizado dos códigos de comportamento aceitos para a vida em sociedade;
  3. a racionalidade científica tem se fortalecido como fonte de conhecimento confiável sobre os fenômenos da natureza e da sociedade, questionando dogmas religiosos e as convenções sociais;
  4. o conhecimento sobre as dinâmicas sociais, políticas e culturais produzido pelas ciências sociais em geral, e pela sociologia em particular, pressupõe posicionamentos políticos implícitos e explícitos.

Mesmo sabendo que você deve estar lendo estas linhas pela tela do seu smartphone, com pressa pra checar as redes sociais (e talvez  stalkear @ crush) te peço para não me abandonar tão cedo. Não posso pular para o final sem antes desenvolver um pouco cada um destes tópicos que acabei de mencionar. Como Jack – the Ripper – vamos por partes.

Somos seres gregários

Vivemos e nos desenvolvemos em grupos. Somos influenciados e sofremos influências – das mais diversas – a partir do amplo conjunto de relações e interações que estabelecemos durante o curso das nossas vidas. Por mais simples que possa parecer ser, esta afirmação tem desdobramentos importantes. Primeiro, o indivíduo isolado de seu contexto não passa de uma abstração ilusória. Desde o nosso nascimento estamos estabelecendo contatos, de maior ou menor significância, com outros indivíduos, com o ambiente e com as informações que recebemos de tantas fontes diferentes. Isso acontece através da Família, Igreja, Escola, Empresa, Clube de Futebol, da turma do Bairro, Vila ou Condomínio e, agora mais do que nunca, dos quinhentos e trinta e sete grupos de WhatsApp dos quais cada um de nós faz parte. Em cada uma destas esferas de vivência, desempenhamos papeis sociais, organizados por diferentes graus de expectativas.

Temos comportamentos obrigatórios, esperados e possíveis. Por exemplo, como estudantes temos a obrigação de acompanhar as aulas, esperam que façamos anotações dos conteúdos passados em sala e pode ser tenhamos alguns desentendimentos com colegas de classe, ou até mesmo dificuldades em seguir rígidos códigos de comportamento. Para algumas pessoas é muito difícil manter o silêncio ou não usar o celular dentro da sala de aula! Não nos relacionamos apenas com outras pessoas, mas também com o ambiente físico e cultural onde estamos. Sejam os códigos de conduta, a teoria da evolução das espécies, o aquecimento global ou as eleições presidenciais, nós não somos alheios ao que acontece ao nosso redor. Tampouco somos receptores acríticos dos impulsos que nos alcançam. Tudo que chega até nós passa pelos nossos filtros de interpretação, que são construídos de forma cumulativa, mas seletiva – nem sempre consciente. A crescente divisão social do trabalho, fenômeno típico das sociedades industrializadas [Quem aí lembra do Durkheim?] deslocou a fonte de força destes filtros da vida comunitária, grupal e familiar para escola.

Socialização e Integração Social em Sociedades Industrializadas

Enquanto fenômeno genérico, a educação é o processo através da qual as crianças são ensinadas a desenvolver laços de solidariedade com os demais membros da sociedade, privilegiando o respeito mútuo e a responsabilidade coletiva. Assim, a função da educação é socializar, fazendo-os desenvolver conhecimento sobre as normas sociais e os valores que vem a construir sua identidade. Em sociedades tradicionais – pré-industriais – este processo ocorria no seio da família, da comunidade ou da tribo, tornando o jovem conhecedor dos elementos básicos da sua cultura. Ao participar das atividades dos grupos, os jovens internalizavam e incorporavam regras de conduta capazes de reproduzir a sociedade através do tempo. Com o avento das fábricas e progressivo deslocamento do local de trabalho para fora do ambiente familiar, o processo de socialização se reconfigurou de duas maneiras.

Primeiro, a hiper-segmentação das etapas dos processos produtivos passou a requerer trabalhadoras e trabalhadores com conhecimentos cada vez mais específicos e alto grau de resiliência ao ritmo de funcionamento das máquinas.  À educação coube ainda ensinar habilidades necessárias para a realização de atividades cada vez mais especializadas. Segundo, ocorreu uma transição da responsabilidade sobre o ensino das regras de conduta para a vida coletiva, que passou das mãos das famílias, da Igreja e dos mentores – nos casos dos nobres e ricos comerciantes – para as do Estado-Nação. Consequentemente, a escola tem ocupado um papel cada vez mais central nos processos de socialização e integração social dos indivíduos para serem úteis e eficientes ao paradigma vigente. A escola forma os indivíduos, tanto no seu componente técnico quanto ideológico.

 

Ideologia se tornou um conceito mencionado por muitas pessoas, e cada uma dessas pessoas atribui um sentido ao termo. Você já se sentiu meio perdido ao ouvir essa palavra? Para que a gente tenha um entendimento compartilhado, vamos combinar de usar o significado comum às ciências sociais. Ideologia é o conjunto de ideias de senso comum e de crenças, que são compartilhadas pelos membros de uma determinada sociedade e que servem para que as classes sociais dominantes legitimem seus privilégios. Um exemplo de ideologia é a falsa ideia de que existe uma pré-determinação natural para que os homens sejam racionais e as mulheres emotivas e, que por isso, eles devam se ocupar dos negócios enquanto elas cuidam da casa e dos filhos.

 

Voltando ao tema da educação, Talcott Parsons é categórico e afirma que através das ferramentas de avaliação personalizada a educação escolar desempenha a função de moldar o indivíduo para se tornar um ser competitivo, orientado exclusivamente pela busca de conquistas individualizadas. Gostando ou não, a educação escolar já é uma ferramenta de doutrinação ideológica, que constantemente cria e recria uma sociedade baseada no individualismo. Os laços de solidariedade que antes eram atados pela convivência grupal e regidos pelos costumes familiares e religiosos se tornam sujeitos à crítica pelo mesmo corpo de conhecimentos que impulsionou o avanço tecnológico e econômico: a moderna ciência.

 

No início Deus criou o céu e a terra.

E a terra não tinha forma;

O vazio e a escuridão pairavam sobre a imensidão.

Quando o espírito de Deus se moveu sobre as águas Ele ordenou que se fizesse luz:

E a Luz Apareceu, iluminado toda a Criação.

E viu Deus Que a Luz era boa;

E Deus Separou a luz das trevas.

 

A analogia com a conquista das trevas pela luz é constantemente associada a superação do desconhecido. Na história moderna esta metáfora foi usada para marcar a ascensão de um movimento filosófico, político e cultural conhecido como Iluminismo, que substituiu as interpretações metafísicas e religiosas pela racionalidade científica. Fenômenos naturais, como a posição do sol em relação a terra (e vice-versa), deixaram de ser explicados através de dogmas ou convenções para serem compreendidos com base em observações sistemáticas e cautelosas. Várias inovações técnicas utilizadas para a produção e a guerra abriram espaço para o desenvolvimento da mecânica, da química e do pensamento analítico-racional. O artesão que não utilizasse as novas técnicas de cálculo, de gestão de recursos e as novas máquinas, visando o continuo aperfeiçoamento do seu empreendimento, estava fadado a perder para a concorrência. A observação da realidade, a manutenção de registros destas observações, a replicação destes fenômenos em ambientes controlados e a construção de hipóteses gerais sobre as leis que governam a natureza se tornou a maneira pelo qual passamos a entender nosso lugar e agir sobre o mundo.

O espírito científico crítico (que é totalmente desconhecido das sociedades sem competição econômica) é o explosivo mais poderoso que a sociedade humana já produziu.” (Zilsel, E., 2000 [1942]: 937.)

A história do capitalismo acaba sendo a história de como ciência, tecnologia e sociedade tem co-evoluído continuamente. Seguindo uma caracterização conhecida pelo nome de ‘ondas de Schumpeter’, podemos dizer que desde a as 1770 até o início do século XX, passamos por cinco grandes revoluções tecnológicas:

  1. A primeira revolução tecnológica, com o tear mecânico;
  2. A era do vapor, das ferrovias e das comunicações transcontinentais;
  3. A era do aço, da energia elétrica e das grandes obras da engenharia;
  4. A era do petróleo, da automobilística e da produção em massa;
  5. A era da informação e das telecomunicações.

Em cada uma destas revoluções tecnológicas surgiram novas tecnologias, empresas e infraestruturas. Quando olhamos para trás buscando compreender o que nos trouxe até o atual estágio de desenvolvimento de desenvolvimento do capitalismo, não podemos ignorar as relações entre conhecimento científico, novas tecnologias e renovadas formas de organização da vida em sociedade. A compreensão sobre a força da gravidade e o aperfeiçoamento das rodas-d ’agua não podem ser separadas do surgimento da indústria têxtil na Inglaterra do século XVIII sem que se corra o risco de reproduzirmos uma narrativa parcial e ingênua da nossa própria trajetória enquanto humanidade. Com suas máquinas e instrumentos de controle, a ciência moderna criou um mundo totalmente diferente daquilo que era imaginável até então.

Os desafios da modernidade exigem novos olhares

As rupturas advindas das novas dinâmicas sociais e tecnológicas trouxeram desafios, porque as coordenadas de ação até então tidas como válidas não ofereciam mais condições de orientar o comportamento das pessoas. A queda dos regimes monárquicos absolutos – com a separação entre o poder da Igreja e do Estado – a progressiva substituição dos modos de vida tradicionais pela vida nas cidades e nos centros urbanos trouxeram dúvidas para os indivíduos. Seus códigos de conduta não mais condiziam com a realidade que precisavam enfrentar diariamente. As respostas aos seus anseios são construídas ao submeterem as dinâmicas sociais, políticas e culturais à investigação. As ciências sociais e a sociologia surgiram como corpo de conhecimentos responsáveis por analisar, compreender e interpretar as leis que orientam a vida em sociedade.

Anos de descaso e de inconsistência da presença da sociologia no ensino médio fizeram com que a maior parte da população Brasileira adulta não faça ideia daquilo que de fato faz uma pessoa que se dedica a estudar a sociedade. Para muitos, o sociólogo é um espécime exótico, que ninguém se sabe direito onde vive, o que come, nem como se reproduz. Na imaginação popular sobrepõem-se imagens que hora o aproximam do espião frio e distante, responsável por coletar quaisquer dados estatísticos sobre o comportamento humano, e do reformador social, empenhado profissionalmente em atividades edificantes para o benefício dos indivíduos e da comunidade em geral. É mais justo, no entanto, afirmar que o sociólogo é uma pessoa que se ocupa de compreender a sociedade de uma maneira disciplinada.

“em toda à parte, porém, a fidelidade dos sociólogos ao ethos científico tem significado disposição de obedecer a certos cânones científicos de conduta. Se o sociólogo permanece fiel à sua vocação, deve ter chegado a seus enunciados através da observação de certas regras que permitam a outras pessoas verificar, repetir ou estender suas descobertas.” (Berger, Peter L. ,1986: 22)

Aquele que observa não o faz à distância, com binóculos, mas participa do constante jogo de compreensão e reconstrução do mundo. A observação da realidade social não se separa do posicionamento político ou mesmo dos valores do próprio observador. Como argumentei na primeira parte deste texto, viver em sociedade imprime nos indivíduos certas concepções do que é certo ou o que é errado, em situações específicas e gerais. Não é plausível cobrar indiferença justamente daqueles que se ocupam em identificar os mecanismos pelos quais oportunidades e recursos – sejam eles materiais ou simbólicos – são distribuídos desigualmente entre os diversos grupos que compõem o tecido social.

Muitas das desigualdades que existem no nosso país são resultado de processos que tiveram início nos séculos passados. A proibição da posse de um ser humano por outro, por exemplo, não promoveu automaticamente a ascensão social, econômica e independência política dos negros e indígenas brasileiros. Por falta de mecanismos apropriados de inserção no mercado de trabalho, o efeito foi ainda mais perverso. Como bem demonstra Darcy Ribeiro (1995)

“Depois da primeira lei abolicionista ‐ a Lei do Ventre Livre, que liberta o filho da negra escrava ‐, nas áreas de maior concentração da escravaria, os fazendeiros mandavam abandonar, nas estradas e nas vilas próximas, as crias de suas negras que, já não sendo coisas suas, não se sentiam mais na obrigação de alimentar. Nos anos seguintes à Lei do Ventre Livre (1871), fundaram-se nas vilas e cidades do estado de São Paulo dezenas de asilos para acolher essas crianças, atiradas fora pelos fazendeiros. Após a abolição, à saída dos negros de trabalho que não mais queriam servir aos antigos senhores, seguiu‐se a expulsão dos negros velhos e enfermos das fazendas. Numerosos grupos de negros concentraram‐se, então, à entrada das vilas e cidades, nas condições mais precárias.” (232-233)

Como elementos agravadores desta lógica perversa, podemos lembrar que estas populações permaneceram, por grande parte do século XX, desassistidas das políticas públicas de acesso à educação e à saúde. Portanto, reconhecer que pessoas de algum grupo em específico encontra maiores dificuldades para viver de maneira digna faz parte da própria forma de produção do conhecimento nas ciências sociais. Alguém espera que um médico apenas catalogue novas doenças ou que use seu conhecimento para tratar dos doentes?

O Sociólogo como Partisano

Durante a Segunda Guerra Mundial, uma importante fonte de resistência ao crescente poder exercido pela Alemanha Nazista e pela Itália Fascista veio dos Partisanos. O termo deriva do Latin e se refere a um membro de uma força militar irregular, que se organiza em oposição ao controle de uma determinada área por parte de poderes exteriores. A analogia entre a atuação dos sociólogos com os movimentos de resistência ao Nazi-Fascismo é explorada por Alvin W. Gouldner, em um artigo publicado na The American Sociologist em 1968.

Ao identificar o que justifica o alinhamento da sociologia com a perspectiva dos menos favorecidos, Gouldner é direto: porque eles sofrem. Existem aspectos da realidade que são desconhecidos, porque destoam das concepções de mundo sustentadas pelos ricos, pelos poderosos e pelos respeitáveis. Quando o sofrimento se torna visível é impossível permanecer apático. Claro, existem formas de sofrimento que vão continuar existindo independente das nossas ações, mas também existem formas de sofrimento que são desnecessárias, que podem e devem ser evitadas.

Se a nossa educação escolar não for capaz de formar jovens que reconhecem o sofrimento dos seus semelhantes teremos falhado. Se não pudermos doutrinar as crianças e os jovens para que tenham responsabilidade e para que coloquem sua capacidade criativa a serviço da liberdade e da solidariedade iremos falhar. Não iremos apenas falhar como país. Não iremos falhar como nação. Não é isto que está em jogo. Se a escola for proibida de discutir cientificamente as desigualdades sociais, a sustentabilidade ambiental ou a concentração dos poderes político e econômico iremos falhar como humanidade. A quem de fato interessa a escola sem partido?

 

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