#011 – Zum Klassenkampf – À Luta de Classes

Dias atrás eu estava perdendo tempo numa rede social e me deparei com uma afirmação/aberração curiosa:

o Brasil está assim polarizado por causa da esquerda, e principalmente, do PT que criou a luta de classes no Brasil, colocando as pessoas de classes sociais diferentes como inimigas! […] Estamos todos no mesmo barco, é preciso união, precisamos acabar com essa luta entre as diferentes classes sociais se quisermos realmente construir um grande país.

Se você não viveu numa ilha deserta ou num um abrigo nuclear durante os últimos cinco anos, você certamente já ouviu ou leu algo parecido. Pode ter sido durante o jantar de natal, o almoço de domingo, na mesa do bar, dentro do uber voltando do mesmo bar, na fila do supermercado, em algum grupo do zapzap ou qualquer outra rede social. Para muitos, a esquerda e o PêTê criaram a luta de classes no Brasil. Isso não é verdade e que cada vez que alguém reproduz algo parecido com esta ideia morrem dois professores de sociologia e um de história.

Meus amores, por quê? Por que vocês não prestaram atenção às aulas de humanas? Se tivessem não iriam ficar reproduzindo algo tão estapafúrdio. Antes de repetirem esta máxima da sabedoria pensem que vocês sempre tem duas opções. Podem ficar em silêncio e deixar que as pessoas pensem que vocês são ignorantes no assunto; ou podem abrir a boca e para apresentar atestado de burrice.

Afirmar que essa ideia é estúpida parece muito forte e ofensivo. Não dá para escrever isso aqui, taoquei!? […] Beleza, então escreve aí: Apesar de ser completamente absurda essa ideia se propagou como risco de pólvora por causa do entrelaçamento de três fenômenos distintos, mas que não são independentes:

1º. Analfabetismo funcional, 29% da população brasileira é capaz de ler apenas seu próprio nome e frases soltas, apenas 12% são pessoas proficientes. Ou seja, 88% da população encontra dificuldades para interpretar textos que não fazem parte do seu cotidiano;

2º. Iletramento digital, nativos e imigrantes digitais sofrem podem conseguir desempenhar funções básicas e até avançadas no mundo das plataformas digitais, acessar e-mail, ler noticias, operar programas específicos para o ambiente de trabalho, realizar transações comerciais e acessar as redes sociais mas tem grande dificuldade em avaliar e analisar o conteúdo ao qual tem acesso;

3º. Má-fé, infelizmente a junção do analfabetismo funcional com a incapacidade de avaliar críticamente o conteúdo digital que consome torna a população sujeita à ações que conscientemente visam reproduzir informações fantasiosas e incorretas com o intuito de tomar proveito desta situação.

Não é muito difícil espalhar mentiras quando a população tem acesso à internet e às redes sociais mas não consegue avaliar criticamente o que o que recebe. Seria ingenuidade esquecer que que um terço da população é funcionalmente analfabeta. Talvez aquela pessoa que fica repetindo por aí que Karl Marx criou a luta de classes nem tenha más intenções. Ela só está mal informada. O grande problema é que quem inventou essse papo tem muito a ganhar enquanto engana a geral. A propagação de informações falsas é fundamental para domínio e controle da população.

Falam tanto desse livro, mas se tivessem tido o trabalho de ler o primeiro capítulo ‘Burgueses e proletários’, ou só mesmo os dois primeiros parágrafos do Manifesto do Partido Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels, publicado pela primeira vez em 1848 e amplamente disponível na internet – não passariam tanta vergonha.

“A história de todas as sociedades que existiram até hoje é a história de lutas de classes. (…) opressores e oprimidos sempre estiveram em constante oposição uns aos outros, envolvidos numa luta ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que terminou sempre ou em um transformação revolucionária de toda a sociedade, ou com o declínio comum das classes em luta.”

Acreditem ou não, o argumento de Marx e Engels já foi hit e esteve nas paradas de sucesso no início da primeira década dos anos 2000. Você certamente deve lembrar do refrão. Talvez hoje a música seria censurada por promover o marxismo cultural.

Marx e Engles não criaram a luta de classes, eles apenas tornaram explícito que a maior parte das sociedades até então conhecidas tem basicamente se organizado em dois grupos com interesses opostos. O ponto de partida é de que viver em sociedade é preciso produzir. A vida em sociedade só é possível quando produzimos alimentos, ferramentas, abrigos, roupas, etc e para isso as pessoas precisam trabalhar.

Ao analisar a história de como o trabalho foi organizado nas sociedades ocidentais Marx e Engels [Atenção: não confundir com Hegel] identificaram que o mundo do trabalho se organiza em dois grupos. Aqueles que produzem e aqueles que não produzem, que podem ser outras pessoas, empresas, bancos ou o próprio Estado, mas se apropriam de uma parcela daquilo o primeiro grupo produz.

Dito de outra forma: De um lado existe um pequeno grupo de pessoas que são privilegiadas e não precisam exercer trabalho físico para se manterem vivas. Do outro lado, há um amplo grupo de pessoas desprivilegiadas, que não tem posses e que para sobreviver precisam trabalhar. Embora possam existir diversas subdivisões dentro da sociedade e mesmo com a ampliação da divisão social do trabalho em milhares de ocupações distintas, são sempre estas duas classes – os Capitalistas e os Proletários – que estão em constante luta, porque possuem interesses antagônicos.

Existe uma luta constante entre as classes socais porque há uma enorme desigualdade de acesso à saúde, à educação, à alimentação saudável, à segurança, à participação política (cidadania), etc entre aqueles que possuem a propriedade sobre os meios de produção – terras, ferramentas, matérias-primas, recursos financeiros, etc – e aqueles que possuem apenas a sua capacidade de trabalhar.

Justamente porque essa desigualdade não foi uma criação divina, mas resulta do processo histórico de acumulação de riquezas, as classes inferiores lutam pelo direito de consumir e de ter acesso àquilo que foi produzido pelas suas mãos e com o seu suor.

Para sistematizar as principais transformações pelas quais passou a luta de classes até o período da industrialização eu me apoio no trabalho do historiador brasileiro Nelson Werneck Sodré (a, b). Os principais modos de produção identificados por Sodré no conjunto da obra de Marx são: Primitivo, Escravista, Feudal e Capitalista.

A total inexistência da luta de classes é encontrada apenas no modo de produção primitivo. Nesse os meios de produção eram de propriedade comunal, a cooperação era simples, a divisão do trabalho era natural e se organizava com base nas capacidades e interesses dos indivíduos, e não haviam excedentes. Produzia-se apenas o necessário para viver.

É, no mínimo, irônico pensar que as mesmas pessoas que acusam a esquerda e o PêTê de terem criado a luta de classes no Brasil são aquelas que defendem o fim desta luta. Não se deram conta que o fim da luta de classes significa a consolidação da sociedade comunal, o comunismo.

É com o surgimento da produção de excedentes que surge a divisão social do trabalho e consequentemente a luta de classes, porque um grupo de indivíduos daquela comunidade passa a estabelecer algum direito sobre os produtores e/ou sobre aquilo que produziram. Quando você pensa que está trabalhando como um escravo é porque o início da luta de classes pode ser associado ao modo de produção escravista.

Nesse modelo de organização da produção inicia a produção de excedentes, cria a necessidade do dinheiro e forma as primeiras cidades, as quais resultam do estabelecimento de centros de troca de mercadorias. Nas cidades surgem também os pequenos artesãos, como os ferreiros. A produção escravista organiza a sociedade em Homens livres, que são os grandes proprietários ou os pequenos produtores/artífices, e os escravos. São os escravos que mantém os grandes proprietários, pois precisam trabalhar para sobreviver e para garantir os excedentes para os seus senhores.

O funcionamento desse modo de produção contém as sementes da sua própria aniquilação, pois dependiam de uma força de trabalho que era constantemente aniquilada. Além disso, a sua capacidade de produção arruinou os camponeses e artífices, que também precisavam pagar impostos e não tinham capacidade de competir com os senhores de escravos. Além de sustentar aqueles que não trabalhavam, o modo de produção escravista demandava a conquista e o domínio de outros países e seus povos.

A produção escravista se corroeu pela deterioração da mão de obra, pela desintegração do Império e pela desintegração dos latifúndios romanos. Do Séc. V ao Séc. X os latifúndios foram substituídos por diversas propriedades individuais, atribuídas pelos Reis aos Senhores de Terras. Esses senhores subdiviram suas terras em glebas, que por sua vez foram ocupadas por colonos, que eram os servos da gleba.

O regime de produção Feudual é caracterizado pelo fato de que os servos da gleba eram livres, possuíam as ferramentas para desempenhar o seu trabalho e podiam usar a terra para produzir o suficiente para o seu sustento. No enato, aquele que cultivava – trabalhava – precisavam pagar ao Senhor de Terras pelo uso delas, com trabalho, com dinheiro e com o excedente da sua produção.

Os servos não eram propriedade do senhor de terras, mas à ele estão ligados por um regime de dependência.

Pode parecer que neste caso a luta de classes se resumia na luta entre Senhores de Terras e Servos. Essa seria uma simplificação grotesca até para um blog. Não era bem assim. Os senhores eram ligados entre si, por laços de dependência e de hierarquia e, o mais importante é que, detinham o poder de gerenciar o Estado porque faziam parte da Nobreza e do Clero (lembrem-se que a Igreja também era possuidora de terras). Além destes, haviam os oficiais, os comerciantes ricos, os mestres artesãos (donos de oficinas) e seus aprendizes, os camponeses, e a população pobre do campo e das cidades.

O fim do Feudalismo está associado à ampliação do excedentes caracterizada pela consolidação do dinheiro como medida de valor, meio de circulação, meio de acumulação e meio de pagamento. A ampliação das trocas de mercadorias favoreceram a organização de associações de comerciantes, que constituíram uma nova camada social, que vivia nas cidades, a burguesia.

Os indícios do fim do Feudalismo aparecem quando a burguesia começa a financiar a construção de fábricas e instituir um novo modelo de organização do trabalho, a manufatura, que substituiu as pequenas oficinas onde mestres e aprendizes trabalhavam juntos.

“Quando o desenvolvimento histórico atinge tal etapa, os ofícios mostram-se insuficientes para atender ao consumo e começam a desintegrar-se: os mestres mais ricos tornam-se capitalistas; os mais pobres, os oficiais e os aprendizes tornam-se os assalariados. […] Parte da população rural gravita para as cidades e trabalha à salário. A força de trabalho é barata e a riqueza se agrupa para emprêgo (sic) em massa, como capital.

(Sodré, 1964: 09)

Há uma mudança, no entanto, que precisa ser destacada, se no surgimento do modo de produção Capitalista a Burguesia, com seu capital comercial, exerceu papel central, no período seguinte o Capital comercial é dependente do Capital Industrial, que são os donos dos meios de produção e empregam trabalho assalariado. Artesãos independentes, pequenos comerciantes e camponeses se tornaram parte de um exército reunido em grandes galpões, as indústrias e corporações que marcaram o final do Séc XIX e praticamente todo o Séc XX.

Se as fábricas, os chefes de fábrica e a linha de montagem controlavam nossos pais, avós e bisavós, agora somos somos controlados à distância, fora das fábricas, conectados por plataformas informacionais que se apresentam como aplicativos de serviços. Tanto como consumidores quanto como fornecedores de serviços somos avaliados por algarismos sobre os quais nada sabemos e tem levado pequenos empreendimentos à falência.

Ainda vivemos divididos em duas classes, e não é a esquerda, ou o PêTê, que tem criado conflitos inexistentes. Trabalhadores informais, motoristas e cobradores de ônibus, estudantes e professores, profissionais liberais, nativos digitais, freelancers e membros da classe média, somos todos Proletários. Não ignorem o fato de que somos membros da classe social que sustenta o sistema capitalista e gera a riqueza usufruída por uma parcela cada vez menor da população mundial. O patrimônio de apenas oito homens é igual ao da metade mais pobre do mundo.

Existem aqueles que detém poder, recursos e influência junto ao Estado e aqueles que precisam seguir sob a constante ameaça da súbita expropriação das suas condições de manutenção da vida. Enquanto não nos reconhecermos como parte da classe social subjugada, o Proletariado. Enquanto não buscarmos formas de atuação organizada e conjunta não conseguiremos barrar o conjunto de ofensivas contra nossos direitos, nossa saúde mental, nosso tempo de descanso, contra a justa remuneração pelo nosso trabalho ou até mesmo contra o meio ambiente. Porque não são as pessoas pobres, que desmatam a amazônia porque precisam comer. O desmatamento da amazônia e o sangue dos indígenas que lutam pela sua preservação estão nas mãos daqueles que buscam explorar seus minérios, seus recursos naturais e ampliar a fronteira agrícola.

O Capitalismo é um esquema de pirâmide. O autor do blog não reivindica a autoria da imagem.

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