#017 – Contra o Mito, da neutralidade científica

O lugar da verdade na ciência

A manutenção da democracia e das liberdades individuais depende, em grande medida, da manutenção da liberdade de expressão, mas, mais especificamente, da liberdade para a produção e disseminação do conhecimento científico. No entanto, a disseminação das novas Tecnologias de Informação e Comunicação permitiu a proliferação de informações falsas, que não passaram pelo criterioso processo de avaliação por pares que mantem a confiabilidade do conhecimento científico.

Parafraseando Umberto Eco, devemos reconhecer que opiniões esdrúxulas, que antes eram restritas às rodas de conversa entre um e outro copo de cerveja, agora são disseminadas indiscriminadamente através da internet e das redes sociais. Na sua opinião “o drama da internet é que ela promoveu ‘o idiota da aldeia’ a portador da verdade. (ANSA BRASIL, 2015). E agora, o idiota da aldeia está dizendo que ninguém deveria acreditar na ciência.


Aqueles que negam o conhecimento científico e a sua importância no mundo contemporâneo argumentam que ela é contaminada por interesses ideológicos. Esse tipo de argumento é, geralmente, defendido por aquelas pessoas que comparam a atividade científica contemporânea com as “descobertas” do passado.


A falha no argumento destes negacionistas esta no fato de que as descobertas científicas de Pasteur, de Newton ou de Galileu são apresentadas na sua forma pronta, estabilizada. Pouco espaço é dado para o ensino sobre o contexto socioeconômico, os interesses as controvérsias que envolveram a consolidação das suas teorias científicas. Tão distantes do seu contexto de aplicação, as teorias cientificas aparecem como da verdade intrínseca dos fenômenos sociais ou naturais.

A primeira lição que qualquer pessoa precisa aprender antes de criticar, negar ou aceitar teorias científicas, fatos cientificamente comprovados ou mesmo informações cientificamente produzidas é de que a ciência não produz verdades, produz conhecimento.


Verdades absolutas só são encontradas nos Livros Sagrados ou nas Tradições Religiosas que transmitem suas crenças oralmente, por gerações e gerações. Para os praticantes destas, a Verdade é absoluta e inquestionável.


Aqueles que produzem conhecimento científico partem do pressuposto de que ele precisa ser avaliado e questionado até que seja aceito, e mesmo depois de aceito ele ainda pode vir a ser questionado, modificado e até abandonado de vez.

Esses pontos de partida são oriundos da Epistemologia, uma área da filosofia que cujo objetivo é refletir sobre os critérios que definem se um conhecimento pode ou não ser considerado científico.

Por exemplo, podemos dizer que, diferente da astrologia, a astronomia é científica porque suas teorias podem ser comprovadas pela observação do mundo ‘real’. Do ponto de vista histórico, podemos dizer que esta é a primeira e mais importante diferença entre o conhecimento científico e as especulações metafísicas, as revelações teológicas e demais tipos de achismos e teorias conspiratórias, que não podem ser empiricamente  comprovadas.

Uma tradição clássica de reflexão sobre o caráter científico do conhecimento, o positivismo, afirma que a cientificidade do conhecimento depende de que ele seja produzido por meio de uma metodologia empirista e quantitativa, ou seja, que permita identificar as hipóteses e as abstrações teóricas no mundo real. Nessa perspectiva, só é verdadeira a hipótese que cujo conteúdo possa ser comprovado pelos sentidos.

Por ser empiricamente verificável o positivismo considera que a ciência é isenta de juízos de valor, imparcial e desinteressada. Ela pode apenas realizar juízo dos fatos e, constatar empiricamente as hipóteses e, relacionar o teor da ciência à realidade empírica (Dutra, 2003). Essa noção de que a ciência deve ser desinteressada teve e ainda tem muita influência sobre como os campos do saber devem proceder para que sua produção seja concebida como científica. O progresso da ciência para o positivismo é resultado do acúmulo e sobreposição de novas teorias científicas, que em algum momento foram observadas no mundo real.

Mas e se uma teoria científica possa ser observada em apenas uma situação, experimento ou elemento muito específico? Essa pergunta guia o trabalho de Karl Popper, cuja maior contribuição à epistemologia é propor o princípio de Refutabilidade. Só é científica aquela teoria que pode ser posta à prova, dedutivamente produzindo novas conclusões que, por usa vez, também podem ser são refutadas ou que reafirmam a teoria posta à prova.

É interessante notar que essas conclusões não são diretamente comparadas aos fatos pois, não existem fatos puros disponíveis para comparação. Todos os fatos são observados a partir das teorias que influenciam o observador. Por isso, as conclusões teóricas são o resultado da combinação entre elementos puramente subjetivos, como interesses e expectativas com aquilo que é empiricamente observável. Por isso, Popper afirma que as teorias científicas

não são indutivamente inferidas pela experiência, nem a experimentação científica é realizada com a intensão de verificar ou finalmente estabelecer a verdade das teorias; ao contrário, todo conhecimento é provisório, conjectural, hipotético – Nós não podemos finalmente provar nossas teorias científicas, podemos apenas (provisoriamente) confirma-las ou (conclusivamente) refutar elas; por isso em algum momento nós precisaremos escolher entre o potencialmente infinito número de teorias que irão explicar o conjunto de fenômenos sob investigação.

Cada vez que uma teoria científica é confirmada, mesmo que provisoriamente, utilizada como base de comparação lógica a outras teorias (cf. acima) ou como base teórica para o desenvolvimento de um artefato tecnológico se estabelece uma camada de proteção para a teoria inicial. Pensem quanto foi investido para se chegar no consenso de que a Eugenia não tem condições para alterar a natureza humana, embora seja muito eficiente para a alteração genética de plantas e animais.

Cada área da ciência é constituída pelo acúmulo dessas diversas camadas de consensos, que serão sempre temporários, acabam estabelecendo as diretrizes para: o desenvolvimento de teorias subsequentes, as metodologias aceitas por cada campo, as práticas dentro e fora dos laboratórios e, a atuação dos membros e membras da comunidade de praticantes desse campo disciplinar. Thomas Kuhn, um historiador e filósofo da ciência, atribuiu a esse fenômeno o nome de Paradigma Científico.


Paradigma deve ser uma das palavras mais utilizadas e menos compreendida no mundo.


No seu livro ‘A estruturas das revoluções científicas’, publicado em 1962, ele defendeu que existem dois tipos de ciência: i. a ciência normal e; ii. a ciência extraordinária.

A ciência normal se assemelha aos processos descritos acima. Na maior parte do tempo, cientistas utilizam as referências do paradigma científico para solucionar novos quebra-cabeças. Quando surgem dificuldades em resolver ou interpretar novos dados passam a ocorrer ajustes incrementais ao paradigma.

O acúmulo de ajustes incrementais e, principalmente, de situações que não podem ser explicadas satisfatoriamente enfraquecem o paradigma e abrem espaço para a produção da ciência extraordinária.

O questionamento da eficiência é sinal de um período de crise, que abre espaço para o surgimento de diversas teorias concorrentes. Essas disputam a capacidade de produzir metodologias, práticas e instrumentos capazes de solucionar o quebra-cabeças anômalo e ao final da disputa, quando um novo conjunto de premissas e métodos se torna consolidado é possível dizer que ocorreu uma revolução científica.

Um exemplo bem claro de revolução científica é a substituição da teoria Geocêntrica pela Heliocêntrica, ocorrida entre os séculos XVI e XVII. Avanços no campo da óptica possibilitaram a proliferação de estudos astronômicos que, por sua vez, permitiram observar que a terra girava ao redor do sol e que além dela existem outros corpos celestes.

A transição de um paradigma para outro não é um processo puramente guiado pela razão ou pela lógica. É importante lembrar disso para as reflexões subsequente neste conjunto de postagens.

Não é apenas pela apresentação de evidências que se estabelecem novos paradigmas, porque os distintos paradigmas são incomensuráveis, ou seja, não possuem os mesmos critérios de avaliação dos dados coletados, nem os mesmos métodos – não falam a mesma língua – e por isso apresentam resultados distintos.

A mudança paradigmática é de fato um processo de adesão profissional, cujos critérios são marcados pela reputação científica dos proponentes do novo paradigma, pela a capacidade deste identificar fenômenos que não eram visíveis no paradigma anterior e por questões estéticas, como uma maior simplicidade e clareza na apresentação e explicação dos fenômenos sociais ou naturais.

Geralmente cientistas mais estabelecidos são mais resistentes e os mais jovens, ingressantes na carreira acadêmica, tem maior propensão a adotar o novo paradigma, contribuindo para a multiplicação das camadas de proteção deste novo paradigma. Assim, chegamos ao ponto em que é necessário que se apresentem exemplos de que elementos ‘extra científicos’ foram fundamentais para o desenvolvimento da ciência moderna. Mais que isso, que ele foi ideologicamente orientado desde a sua gênese.


Referências:

DUTRA, LUIZ HENRIQUE DE ARAÚJO. Introdução à teoria da ciência. 2 ed. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2003.

KUHN, THOMAS S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Editora Perspectiva 1970 [1962].


Este é o primeiro de uma sequência de textos que estou produzindo como material de leitura preparatória para a minha participação numa atividade do Instituto Federal de Educação Científica e Tecnológica, Campus Canoas (IFRS-Canoas). O nome da atividade é Jornada das Humanidades em Quarentena. Vai funcionar em formato daquele jeito do googlemeet e qualquer pessoa pode participar.

Assim que possuir o link para a atividade eu disponibilizo ele aqui.

Para acessar o próximo texto basta clicar aqui.

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