#018 – A neutralidade ideologicamente orientada da revolução científica.

Corre a anedota que em certa feita um professor, daqueles que não se vê mais por aí foi indicado pelo seu departamento para acolher a nova turma de estudantes de um programa de pós-graduação, repleta de pessoas cujas formações se encontravam nas mais diversas áreas, da economia à administração, da biologia ao Jornalismo, da sociologia à química. Entrou na sala, olhou que estava por alí e perguntou: “quem aí tem mãe?” Todos levantaram as suas mãos. Tão logo as mãos iam abaixando ele lança outra pergunta: “Quem aí tem ideologia?”. Desta vez não foram todas as mãos que se levantaram. Gente, ‘ideologia é igual mãe, todo mundo tem’, ou vocês acham que os cientistas e as cientistas são tão virtuosos que interesses humanos, empresariais e sistêmicos não os influenciam?

Para responder à pergunta do professor é sempre bom relembrar o que é ideologia!

“Ideologia é um conjunto de CRENÇAS, VALORES e ATITUDES culturais que servem de base e, por isso, justificam até certo ponto e tornam legítimos o status quo ou movimentos para mudá-lo. Do ponto de vista marxista, a maioria das ideologias reflete os interesses de grupos dominantes, como maneira de perpetuar sua dominação e privilégios. (…) Em sentido mais geral, a cultura de todos os sistemas sociais inclui uma ideologia que serve para explicar e justificar sua existência como estilo de vida, seja uma ideologia com raízes na família, que define a natureza e a finalidade da vida familiar, ou uma ideologia religiosa que serve de base e prega um sistema de vida em relação a forças sagradas.” (Johnson, 1997, pp. 281)

É possível haver ciência livre de influências ideológicas?

Thomas Kuhn não foi o primeiro a argumentar que a ciência é influência por elementos sociais, como a ideologia. Por exemplo, antes da publicação do livro de Thomas Kuhn, “entre 1940 e 1960 a sociologia da ciência cresceu de modo lento, porém firme”. (Vessuri, 1991, p. 60)

A estrutura das Revoluções Científicas¸ fortaleceu o desenvolvimento de uma área da história e da sociologia que, até então, existia de maneira limitada aos estudos sobre os impactos da ciência na sociedade e nos estudos da ciência como uma instituição, focando na sua gênese e seu modo de organização interno.

Publicado em 1962, o livro de Thomas Kuhn favoreceu a articulação de um novo campo de investigações científicas, que ficou conhecido por ser a nova sociologia da ciência. Independente de seguir um foco mais acadêmico, como a tradição Europeia, ou mais próxima dos movimentos sociais, principalmente antinucleares, ambientalistas, como nos EUA (Rip, 1999), o campo de estudos sobre as relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) se consolidou defendendo o argumento de que nem as ciências tampouco as tecnologias poderiam ser consideradas atividades intelectuais sociologicamente neutras e por isso merecem analisadas sistematicamente.

A efervescência causada pelo processo de expansão e institucionalização dos estudos CTS promoveu novos estudos ao mesmo tempo que resgatou artigos fundamentais da área. Antes mesmo de existir o campo dos estudos CTS, Edgar Zilsel já havia publicado um artigo chamado The Sociological Roots of Science (As raízes sociológicas da ciência). A publicação original é de 1942 e foi republicada no ano 2000. Outro autor seminal da área é John Desmond Bernal, que publicou Science in History (A ciência na história) em quatro volumes. Ambos convergem sobre alguns dos pontos centrais para o desenvolvimento da ciência moderna.

Primeiro e mais importante é reconhecer que o que conhecemos como ciência moderna está diretamente relacionado com o início do capitalismo europeu. Assim como ele rompeu com as tradições ligadas ao feudalismo, o capitalismo atacou o mundo medieval e o controle total da Igreja sobre o conhecimento.

“Na ciência, como na política, uma ruptura com a tradição significou a liberação da criatividade humana para adentrar campos até então fechados.” (Bernal, 1965, pp. 490)

Segundo, por mais inacreditável que possa ser para quem vive na época contemporânea, o desenvolvimento da ciência moderna deve muito mais à inventores engenhosos do que à acadêmicos que ocupavam posições de prestígio nas universidades da época. (Zilsel, 2000)

Enquanto nas Universidades estavam os acadêmicos, que se localizavam num extrato social próximo da nobreza, realizando debates teológicos, literários, e discutindo sobre os fins e os significados dos fenômenos sociais – em Latim – a sociedade moderna era construída pelas mãos de inventores engenhosos que desenvolviam tecnologias capazes de expandir as atividades de marinheiros, construtores navais, carpinteiros, ferreiros e fundidores.

A emergente ciência estava preocupada com a resolução de problemas cotidianos. Estes estavam intrinsicamente relacionados às atividades que apresentavam maior retorno para o país, sua economia e a capacidade de exercer poder sobre outras nações. As maiores beneficiadas foram, num primeiro momento, as grandes navegações, para as quais as bússolas marítimas eram tão essenciais quanto era a artilharia para o domínio europeu sobre os povos dos outros continentes.

Eles, os inventores engenhosos, e não os cientistas isolados na academia, inventaram a bússola marítima, as armas; construíram fábricas de papel, moinhos, fábricas de arame, estamparias; criaram altos fornos, e no século XVI introduziram as máquinas de mineração. Superando as barreiras das tradições das guildas e sendo estimulados para inventar por causa da competição econômica, eles foram, sem dúvida, os verdadeiros pioneiros das observações empíricas, dos experimentos, e das pesquisas causais. (Zilsel, 2000, p. 940)

Obviamente, estes experimentos não podem ser considerados como experimentos científicos, mas eles definitivamente atraíram o interesse dos acadêmicos da época, e elas levantaram novas questões os quais a nova ciência iria resolver. A modernidade e o capitalismo estavam criando uma nova sociedade para a qual a aritmética comercial, os engenheiros militares, agrimensores, arquitetos e artesões eram essenciais.

As áreas que obtiveram um desenvolvimento científico mais rápido foram aquelas nas quais haviam mais problemas de ordem técnica a ser resolvida. Por exemplo, muitos dos  artistas-inventores trabalhavam simultaneamente como ferreiros, pintores, escultores, arquitetos. Estes foram fundamentais para a “construção de máquinas para levantar objetos pesados, canais, represas, armas e fortalezas. Eles também descobriram novos pigmentos, detectaram as leis geométricas da perspectiva, e construíram novos instrumentos de medição para a engenharia e a artilharia. (Zilsel, 2000, p. 941)

Para a medicina e o estudo da anatomia os artistas foram tão indispensáveis quanto para o desenvolvimento de instrumentos musicais. Pelo lado das ciências físicas e mecânicas é preciso dar destaque aos navegadores, que desenvolveram o compasso, o astrolábio, o quadrante da rosa dos ventos e desenharam os mapas, inclusive identificando as correntes marítimas.

Enquanto os cirurgiões e alguns artistas dissecavam, os topógrafos e navegadores mediam, os artistas-engenheiros e os construtores de instrumentos eram perfeitamente acostumados a experimentação e a medição, e suas regras de ouro sobre quantidade formam os percursores das leis da física moderna.” (Zilsel, 2000, p. 942)

Enquanto permanecermos negando o caráter ideológico da ciência produzida no mundo contemporâneos demonstramos o quão limitado é nosso conhecimento sobre o desenvolvimento da ciência enquanto um conjunto de conhecimentos. Pior, se enquanto docentes, não conseguirmos apresentar o conhecimento científico dentro do seu contexto de aplicação jamais conseguiremos tornar o aprendizado algo significativo para nossos estudantes.

A história da ciência, apresentada de forma contextualizada mostra claramente que:

Primeiro, a tecnologia é percussora do conhecimento científico e por isso é mais correto falar em termos te tecnociência (conforme post anterior);

Segundo, desde o seu início ela esteve associada às grandes navegações, à conquista de novos territórios, às guerras, ao crescimento econômico, à competição e à consolidação do Capitalismo;

Terceiro, não é possível desprender seu desenvolvimento do seu caráter ideológico. A simples definição do que vem a ser um problema que deve ou não ser resolvido pela tecnociência já carrega uma enorme carga de elementos ideológicos.

Refraseando Kuhn, assim como a ciência normal vai dando robustez para uma teoria científica, a própria ciência se torna mais robusta cada vez que uma nova camada de teorias, expectativas, instrumentos e práticas são desenvolvidos. Ao tornarem-na robusta acabam apagando o seu caráter ideológico, imperialista e concentrador de riquezas.

Este fenômeno está tão enraizado nas nossas práticas cotidianas e no nosso modo de entender o mundo que grupos de pesquisa sobre a Política Econômica de Karl Marx, metodologias pedagógica alternativas, sobre o desenvolvimento de empreendimentos de Economia Solidária Autogestionários, etc são criticados por estarem usando dos espaços das escolas e das universidades para promover a Doutrinação Ideológica.

O mesmo não acontece quando são inseridas disciplinas de empreendedorismo ou gestão da inovação nos cursos de ensino médio e superior. Da mesma forma, raramente existem oposições à criação de um “Empresa Junior” na escola ou na faculdade.

O problema, no entanto, é que o apagamento do caráter ideológico do desenvolvimento científico e tecnológico conduz a situações nas quais não haverá liberdade para questionar tanto o conteúdo quanto a aplicação do conhecimento, quiçá criatividade para almejar solucionar problemas extremamente urgentes como o aquecimento global, o devastamento ambiental, a fome, a desigualdade de oportunidades, a segurança para que todos tenham vida digna e a manutenção da liberdade de expressão e de modos de vida e de pensar que sejam diferentes daqueles que controlam o que é e o que não é científico.

Bernal afirma que “o tempo do domínio teológico sobre a ciência se acabou. A teologia ainda pode distorcer ou atrasar o desenvolvimento científico, mas não pode pará-lo. A religião foi tacitamente confinada à esfera moral e espiritual. (1965, pp. 497.) Penso que não sou tão otimista.


Referências:

BERNAL, J. D. Science in History: The Scientific and Industrial Revolution. 3. ed. Middlesex: Penguin Books, 1965. v. 2

JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia: guia prático da linguagem sociológica: tradução. Tradução Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

RIP, Arie. STS in Europe. Science, Technology & Society, [S. l.], v. 4, n. 1, p. 73–80, 1999.

VESSURI, Hebe M. C. Perspectivas recientes en el estudio social de la ciencia. Interciencia, v. 16, n. 2, p. 60–68, 1991.

ZILSEL, Edgar. The Sociological Roots of Science. Social Studies of Science, [S. l.], v. 30, n. 3, p. 935–949, 2000.


Este é o segundo de uma sequência de textos que estou produzindo como material de leitura preparatória para a minha participação numa atividade do Instituto Federal de Educação Científica e Tecnológica, Campus Canoas (IFRS-Canoas). O nome da atividade é Jornada das Humanidades em Quarentena. Vai funcionar em formato daquele jeito do googlemeet e qualquer pessoa pode participar.

Assim que possuir o link para a atividade eu disponibilizo ele aqui.

Para acessar o próximo texto basta clicar aqui.

Para acessar o texto anterior basta clicar aqui.


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